Carlos Claret: (mais) uma vitima anonima da Operacao Condor
Carlos Claret foi sequestrado em Passo Fundo, em setembro de 1978 | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Carlos Claret foi sequestrado em Passo Fundo, em setembro de 1978 | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Samir Oliveira
Os organismos de direitos humanos da America do Sul estimam que a acao integrada entre as ditaduras militares da regiao durante as decadas de 1960 e 1980 produziu um saldo de 400 mil torturados e 100 mil mortos. Ao aparato repressivo-institucional que manipulou essas acoes conjuntas se deu o nome de Operacao Condor.
No Rio Grande do Sul, o termo esta umbilicalmente associado ao caso conhecido como «sequestro dos uruguaios», referente ao rapto de Lilian Celiberti e Universindo Dias em Porto Alegre, em novembro de 1978, por forcas repressivas do Brasil e do Uruguai. Esse episodio ganhou notoriedade gracas ao flagrante dado pelo jornalista Luiz Claudio Cunha, que, a epoca, era correspondente da revista Veja.
Dois meses antes, a 284 quilometros da Capital, o Condor estendia suas garras sobre outra vitima. No dia 12 de setembro de 1978, quatro caminhonetes militares pararam o carro do engenheiro argentino Carlos Claret e o levaram ate o 3o Esquadrao do 5o Regimento de Cavalaria Mecanizado de Passo Fundo.
De la, foi encapuzado e transportado ate a sede da Policia Federal, em Porto Alegre, onde ficou incomunicavel durante 30 dias, submetido a interrogatorios – palavra que, no Brasil de 1978, ainda era sinonimo de tortura. Uma denuncia anonima feita ao Movimento de Justica e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul salvou a vida de Carlos Claret.
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«Quanto tempo levei ate poder dormir outra vez? Nao sei dizer» | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Jair Krischke, lider do movimento, conseguiu avisar o Alto Comissariado das Nacoes Unidas para Refugiados (ACNUR) sobre a detencao do argentino. Em poucos dias, Guy Prim, representante do organismo no Brasil, libertou o prisioneiro politico e o enviou como exilado para a Suecia.
Hoje, Carlos Claret tem conviccao de que sua vida foi salva ao nao ter sido enviado de volta a Argentina de Jorge Videla – ex-ditador que deixou mais de 30 mil mortos e desaparecidos no pais. O engenheiro ainda vive na Suecia, onde se estabeleceu profissional e afetivamente.
«Meu caso e um conto de fadas»
Em passagem por Porto Alegre, onde divulga o documentario El Clavel Negro, Carlos Claret recebeu a reportagem do Sul21 no escritorio do Movimento de Justica e Direitos Humanos. Com raciocinio rapido – nao raro fazendo mais de uma coisa ao mesmo tempo -, o ex-militante da Juventude Peronista falou, entre outras coisas, de sua ida para Passo Fundo em 1976, apos a ditadura argentina afugentar todo o corpo diretivo da universidade na qual lecionava, na provincia de Entre Rios.
«Todos foram para o Chile. A empresa onde eu trabalhava conseguiu um emprego para mim no Brasil, entao fui para Passo Fundo», recorda.
Nascido em 1948, Claret iniciou a militancia politica na Universidade de La Plata. «Sou de uma geracao que queria mudar o mundo. Naquela epoca, nao se perguntava se a pessoa participava politicamente em algum grupo. Perguntavamos apenas em qual grupo ela estava, porque todo mundo se envolvia», lembra.
Engenheiro vive ate hoje na Suecia | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
O engenheiro se mudou para o Brasil assim que percebeu os riscos de continuar na Argentina e, embora nao acreditasse que fosse visto como uma ameaca pela ditadura, nunca baixou a guarda no exilio. «O perigo sempre existia. Logico que eu poderia ser um alvo. Quando as liberdades pessoais desaparecem, vivemos em um risco permanente. Perdemos nossos direitos essenciais, e algo terrivel», observa.
Carlos Claret tem consciencia de que seu caso foi apenas um dentre os milhares produzidos pela Operacao Condor. «A minha historia e um conto de fadas comparado ao que aconteceu com outras pessoas. O que houve comigo foi uma injustica, mas nao estou morto ou desaparecido», compara.
Mesmo o «conto de fadas» cobrou seu preco para o engenheiro. «As consequencias foram terriveis. Tive que ir trabalhar em uma lingua que nao conhecia, praticamente precisei aprender tudo de novo. Perdi os amigos, tive que recomecar a vida inteira em outro pais. A Policia Federal me roubou ate as cuecas, nao pude levar nada para a Suecia. Quanto tempo levei ate poder dormir outra vez? Nao sei dizer.», conta.
Hoje, afastado de qualquer militancia politica em alguma organizacao ou partido, ele assegura que nao alimenta o odio por seus antigos algozes e comemora os julgamentos levados adiante pela Argentina. «Nao sinto odio por Videla e todos esses personagens macabros. Mas o que fizeram e imperdoavel. Prendiam e matavam sem nenhum motivo. A biologia vai elimina-los antes do que nos, mas esses julgamentos fazem com que as vitimas consigam superar o que viveram. Caso contrario, o espinho da impunidade ficara para sempre cravado», resume.